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Sobre a felicidade

A felicidade é uma ideia de um estado universal e está ligada aos anseios de todos os seres humanos, mesmo que as vias para alcançá-la sejam tão diversas de um sujeito para outro. Relativa à equação falta X desejo, não há como garantir sua permanência, nem há, tampouco, como prometê-la. Boa parte do sofrimento se dá diante da imposição moderna à felicidade, isto é, quando, de contingência ela passa ser uma obrigatoriedade. Por exemplo, quando delirantemente passamos a acreditar nos encantamentos da indústria, que a roupa, o carro da moda, o celular hi-tech ou uma bolada na Mega Sena nos trarão a almejada felicidade. No máximo, nos emprestam alguns minutos de euforia e é só.

É muito comum um psicólogo ser procurado na clínica por um paciente que espera, sinceramente, já numa primeira sessão, que o profissional lhe acene um horizonte sem dor, plácido, pleno de felicidade. Quem, ao menos conscientemente, não quer isso?

Toda a psicologia é herdeira da filosofia, a psicanálise também, calcada no método socrático, a saber, aquele que ousa buscar, sem, contudo responder. Curiosamente, no entanto, todo aquele que passou por análise pessoal sabe que a psicanálise não deixa questões por responder, exatamente porque tais respostas estão contidas na linguagem do analisando. O trabalho do analista é abrir caminhos para a emergência daquilo que o sujeito traz.

A clínica psicológica séria não promete milagres, não se vale de misticismos, nem garante felicidade, essa experiência fugaz que insistimos, via medicamentos, por exemplo, tornar num continuum ou um imperativo. Mas será que se fosse contínua, sem o contraponto de seu avesso, a felicidade teria graça?

Será que em nossa grande capacidade adaptativa não nos sentiríamos logo entediados com tal estado e daríamos um jeito de criar um conflitozinho a lhe fazer frente? E é nesse ponto que entra a ajuda psicológica. O tratamento pode auxiliar, sim, e muito, na lida com os conflitos de qualquer natureza. Pode levar o paciente a perceber, depois de um bom tempo de trabalho conjunto, que felicidade diz respeito à supressão temporária de uma falta, ou seja, um preenchimento, mas que a falta é uma das condições humanas e que nossos desejos são apenas parcialmente satisfeitos, porque na realização de um desejo, logo se seguirá uma outra falta, ou seja, ele estranhamente sobrevive de sua insatisfação e a felicidade talvez aflore nesses intervalos. Como disse Lacan, "o desejo é sempre o desejo de um outro desejo”.

O próprio Freud escreveu que a psicanálise até pode auxiliar na resolução dos problemas da miséria neurótica, mas ela nada pode fazer contra as misérias da vida como ela é. Ainda para o médico vienense, a experiência da felicidade só acontece nos momentos de trégua entre os conflitos inerentes à condição humana.

Trocando em miúdos, o trabalho analítico levará o paciente à compreensão do que ele precisa e do que ele realmente não precisa para ser mais feliz, ou menos infeliz. Também não é, nem de longe, uma tentativa de moldagem do sujeito a alguma imagem pré-estabelecida, ou, o que é pior, à imagem e semelhança de seu analista. Num casamento perfeito entre filosofia e a lógica psicanalítica, diz Kant: “Ninguém pode me obrigar a ser feliz a sua maneira”.

Há modos, intensidades, abrangências, jeitos de ser feliz que podem variar imensamente de uma pessoa para outra, isto é, a busca pela felicidade é, sem dúvida um fenômeno universal, sua realização, não, esta é subjetiva e, novamente, momentânea.

No “Livro do Desassossego”, o poeta luso Fernando Pessoa, sob o heterônimo de Bernardo Soares diz: “O mal todo do romantismo é a confusão entre o que nos é preciso e o que desejamos. Todos nós precisamos de coisas indispensáveis à vida, à sua conservação e ao seu continuamento; todos nós desejamos uma vida mais perfeita, a realidade dos nossos sonhos.

É humano querer o que nos é preciso, e é humano desejar o que não nos é preciso, mas é para nós desejável. O que é doença é desejar com igual intensidade o que é preciso e o que é desejável, e sofrer por não ser perfeito como se se sofresse por não ter pão. O mal romântico é este: é querer a lua como se houvesse maneira de a obter”. Mais adiante, o poeta diz, não se pode comer um bolo sem o perder”.

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