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Uma certa defesa do 'spleen' de Baudelaire: a atualidade da depressão

O título e todo o início do processo de elaboração mental do último livro da psicanalista Maria Rita Khel, “O tempo e o cão”, uma obra que trata do espinhoso e atual tema depressão, a autora credita a uma experiência pessoal somada ao seu percurso analítico de mais de 20 anos.

Numa tarde, acossada por caminhões velozes numa auto-estrada, Khel atropela um cachorro. O cão consegue sair com vida do acidente, embrenhando-se num matagal e rapidamente desaparecendo de seu campo visual. O susto diante do que poderia ter sido fatal, dada a rapidez da ocorrência, detonou uma preciosa reflexão sobre a contemporaneidade e a brutalidade da relação dos sujeitos com o tempo. “Foi um acidente anunciado, com poucos segundos de antecipação, e mesmo assim inevitável por conta da velocidade normal dos acontecimentos, na atualidade. Mal nos damos conta dela, a banal velocidade da vida, até que algum mau encontro venha revelar sua face mortífera. Mortífera não apenas contra a vida do corpo, em casos extremos, mas também contra a delicadeza inegociável da vida psíquica”, explica a autora, amparada inicialmente nas discussões de Walter Benjamin sobre o spleen (forma moderna de acedia) de Charles Baudelaire o qual, segundo o filósofo, “anuncia o caráter de choque da experiência da modernidade, diante da qual o poeta (melancólico?) teria assumido a tarefa de produzir um anteparo simbólico”.

O livro se tece por ensaios. Após as apresentações acerca dos motes acima aclarados, relaciona a depressão com a temporalidade, apresentada, enfim como um sintoma social, diferenciando melancolia e estados depressivos - fugazes, naturais e até desejáveis - com a depressão patologizada. Esta última representada pelo esvaziamento do eu e o não-reconhecimento do desejo. A gênese da melancolia Maria Rita Khel explica como a prisão em busca de fragmentos do passado num “tempo morto, um tempo em que o Outro deveria ter comparecido, mas não compareceu”. Já o depressivo se refugia numa outra marcação de tempo para não ter de satisfazer o Outro, tendo ele próprio cedido de seu desejo além do que pudesse sustentar. O depressivo vive uma outra forma de organização perceptiva do tempo. A inação se transfigurando aqui como um antípoda da pressa. Na sua concepção, de orientação lacaniana, o sintoma do depressivo não se prefigura apenas como um ‘modo de dizer’, mas, dentro do próprio sofrimento, aparece mesmo como um modo de gozar, numa formação erótica substitutiva. É um desejo de nada, um desejo de não, dentro do que Freud denominou de pulsão de morte, na sua obra metapsicológica “Além do Princípio de Prazer” (1920).

A autora debita a conta do inchaço nas estatísticas da depressão especialmente aos imperativos de felicidade do mundo contemporâneo, uma sociedade essencialmente antidepressiva. Como escreveu Danièle Silvestre: do direito à saúde e à alegria passamos à obrigação de ser felizes, ao semblant do ‘estar de bem com a vida’ sempre, dentro do imaginário impossível de um eterno comercial de margarina, nem que para isso tenhamos de recorrer continuamente aos pequenos nirvanas químicos que indústria lícita ou ilícita nos oferece sob a forma de pílulas, pós ou fumos. “A tristeza é vista como uma deformidade, um defeito moral cuja redução química é confiada ao médico ou ao psi. Ao patologizar a tristeza, perde-se um importante saber sobre a dor de viver (...) a medicalização da tristeza ou do luto rouba ao sujeito o tempo necessário para superar o abalo e construir novas referências”.

Para Maria Rita Khel, a vivência atual da temporalidade é um subproduto das ideologias da produtividade, com os seus mandatos-bordões do tipo ‘tempo é dinheiro’, ‘aproveite bem a sua vida’. Tais mandatos, diz ela, poderiam até produzir efeitos subjetivos interessantes e criativos, desde que não se desliguem da historicidade no plano da cultura e do próprio sujeito; mas tornam-se estéreis quando a “ideia de ‘aproveitamento’ alia-se à lógica da produção, da acumulação e do consumo. A obsolescência programada do passado e da memória produz um sujeito permanentemente disponível, pronto a se desfazer de suas referências em troca das novidades em oferta (...) Assim se desvalorizam o tempo vivido e o saber que sustenta os atos significativos da existência”.

Reflexão fundamental para a compreensão dos dilemas de hoje, das ideologias inscritas em suas origens.

Um convite à coragem de apostar em alguma construção de sentido que se contraponha ao vazio de sentido que abate algumas existências.

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