Resenha 'Tudo é Linguagem', de Françoise Dolto

May 11, 2018

 

 

 

A adesão aos consultórios e a quantidade de eventos que têm por linha de base a discussão psicanalítica confirmam o interesse pela reflexão mais profunda acerca dos temas humanos. Como work in progress, obra aberta e inacabada, a psicanálise é um corpo teórico vivo e partilhável por todos, um método terapêutico e uma visão de homem muito interessante. Não foi criada para se transfigurar em ideologia, tampouco em dogma e suscita, sempre, interdisciplinaridade.                                                

 

Pode ser de difícil compreensão, quase indecifrável, até mesmo um instrumento de poder, se houver obscurantismo nas intenções de seu comunicador/praticante. Mas, se a sua comunicação/prática é honesta, pode também ser claramente transmissível, enriquecedora e libertadora.                                                                                                          

 

É o caso do livro “Tudo é Linguagem”, da pediatra e psicanalista francesa Françoise Dolto, que traz ao leitor especializado e ao leitor comum uma comunicação psicanalítica viva e límpida.  Um livro sobre crianças que é também uma obra para nós, adultos, pais ou não. “Tudo é Linguagem”, retoma e amplia o conteúdo de uma conferência realizada em 1986, em Paris, cujo tema era “O dizer e o fazer. Tudo é linguagem. A importância das palavras ditas à criança e diante dela”.

 

Sob a forma de perguntas e respostas que não se pretendem manual, a autora traz a compreensão analítica do que é determinante para a subjetividade humana, sublinhando sempre e enfaticamente a importância do “falar à criança” e a idéia de que todo sintoma é uma linguagem a ser decifrada. “Espero levar à compreensão, assim, do papel do ‘falar a verdade’, a verdade tal como os adultos a transmitem a crianças que, além de a desejarem inconscientemente, a necessitam e têm direito a ela, mesmo que seu desejo consciente, quando se exprimem em palavras, instadas pelos adultos, prefira o silêncio enganador, que gera a angústia, à verdade, muitas vezes dolorosa de ouvir, mas que, se é falada e dita por ambas as partes, permite ao indivíduo construir-se e humanizar-se”, apresenta-se Dolto, dizendo enfim a que veio.                                                       

 

Considerando a criança como ‘sujeito de si mesma’,  e não como os infantes, etimologicamente, ‘os que não têm direito à palavra’, Françoise Dolto fala o tempo inteiro do estímulo à conquista gradual da autonomia  a que têm direito.                                        

 

Questões do desenvolvimento como alimentação, higiene pessoal, desejo, entre várias outras são didaticamente abordadas, com o caráter de orientação. Na questão da recusa à comida, comum nas crianças, por exemplo, deixa clara a idéia de que tal esquiva muitas vezes traduz a tentativa infantil da preservação de sua integridade psíquica, uma vez que a criança nunca deveria ser chamada a satisfazer um desejo adulto. "Nosso papel não é ritmar as necessidades da criança, como pensamos, mas estar a serviço de seus ritmos, dar-lhe comida quando tem fome (...) pode-se dizer que é perverso comer sem fome", diz. E ampliando essa ideia para a atuação psi: “"Nosso papel como psicanalistas não é o de desejar algo para alguém, mas de ser aquele graças a quem ele pode chegar até seu desejo."

 

 Ao leitor leigo, é preciosa a descrição do desenvolvimento da criança como uma sucessão metafórica de "castrações”. Ora! A cada etapa, a criança deve apartar-se de uma realidade para se abrir a outra. Se amparada pelos pais ou cuidadores, cada uma dessas separações acrescerá e humanizará a criança, no desenvolvimento normal. Com o corte do cordão umbilical, o bebê tem de renunciar à fusão com a mãe e, em contrapartida, ganha o mundo. O aleitamento não representa apenas a satisfação de uma necessidade alimentar, porque o recém-nascido também é um ser desejante. É este, portanto, o momento de contato corporal e de comunicação sobre o qual pesa, porém, a necessidade do limite: "precisamos ‘castrar’ a ‘língua’ do mamilo para que a criança possa falar", declara Françoise Dolto, em seu estilo direto.

 

Ou seja: “A chupeta ao bebê, a bala à criança, para que ela não fale, não observe nada, para que fique centrada no seu tubo digestivo, e nada mais. É assim que se coloca o desejo no nível da necessidade, porque assim se consegue satisfazê-lo. Porque, do contrário, ficar-se-ia angustiado. Resultado: essa criança é obrigada a buscar mais e mais satisfazer um desejo, de forma estapafúrdia e carente de linguagem, sem entrar na cultura, que é a linguagem, a representação ou a fabricação daquilo que não se tem”.

 

No desmame, o bebê renuncia novamente à simbiose com a sua mãe e lhe resta a possibilidade da fala para se comunicar. Deixar que a criança se inaugure na cultura humana por meio da linguagem,  reconhecer os impulsos agressivos para transfigurá-los em desejos socializados, parece ser a meta civilizatória no processo educativo de que nos fala a autora.                                                         

 

 

Biografia

         

Françoise Dolto nasceu em 1908, filha de uma família tradicional parisiense. Foi médica pediatra e psicanalista do círculo de analistas de Jacques Lacan, onde compartilhavam talento, carisma e um desgosto pelas instituições de rigidez teórica.                                                                                                                                

Dolto teve maior influência e interesse junto às crianças e à Educação. Desenvolveu a psicanálise com enfoque psicopedagógico e seu grande interesse em vida parece ter sido o de, por meio desse corpo teórico,  auxiliar as relações entre pais e crianças. Contrariamente a muitos psicanalistas cuja formação deu-se originalmente nos cursos de Psicologia, Dolto ouvia a palavra de seus pacientes e a tomava freqüentemente em sua articulação com o corpo. Pode-se dizer que, para ela, era o corpo que falava. Essa é provavelmente uma marca de estilo que, ao lado de outras, propiciou a grande eficácia de seu trabalho.A combinação de empatia e um talento para conversas diretas junto ao público, fez-lhe muito popular dentro da cultura psicanalítica francesa.                 

 

Françoise Dolto faleceu em 1988, deixando trabalhos de dimensões internacionais, com mais de dois milhões de cópias de livros vendidos.                                               

 

 

Em 1988, 10 anos após a sua morte, Dolto passa a ser referência na UNESCO, acerca da sua produção sobre a cognição e os afetos infantis.

Please reload

Our Recent Posts

Depressão

March 21, 2020

O Nome do Pai

March 19, 2019

A importância dos valores

March 19, 2019

1/1
Please reload

Tags

Please reload

Sou um parágrafo. Clique aqui para adicionar e editar seu próprio texto. É fácil.

©2018 BY LITERAL MIND VANESSA MARANHA. PROUDLY CREATED WITH WIX.COM

This site was designed with the
.com
website builder. Create your website today.
Start Now