Os loucos na (minha) literatura

May 8, 2018

 

 

 

A loucura sempre exerceu fascínio sobre o imaginário, já que “ameaça e derrisão do vertiginoso desatino sobre o mundo”, (Foucault) .

Stultifera Navis ou A Nau dos Insensatos, é uma alegoria ressuscitada do ciclo dos Argonautas e que assumiu o universo onírico de pintores e poetas entre os séculos XV e XVI.

Expressava a imagética de desvairados aglomerados, confinados; o louco aterritorial , à deriva na barca sobre as águas do mar, sem chão, silenciado, à margem, longe do ‘mundo bom e são’.  Era o louco como metáfora da exclusão topográfica, como carga insana em sua errância. Um prisioneiro da liberdade perdido entre dois mundos, o da terra e o do mar, no limbo, sem pertencer de fato a nenhum deles.  De Bosch, Bruegel  e Brandt, nas artes plásticas, a alegoria foi posteriormente incorporada por Erasmo de Rotterdam na filosofia, Shakespeare e Cervantes nos textos literários, para citar somente alguns.

 

Machado de Assis, em ‘O Alienista’, tocou fundo no tema da loucura institucionalizada. Guimarães Rosa, no conto ‘Sorôco, sua mãe, sua filha’, do livro ‘Primeiras Estórias’, fala de um trem com grades nas janelas que “ia servir para levar duas mulheres, para longe, para sempre” : mãe e  filha, ambas com doença mental, de um homem viúvo chamado Sorôco. Alusão a um trem que de fato existiu: locomotiva que cruzava o interior do país levando os loucos para despejo num manicômio chamado Hospital Colônia, em Barbacena (MG), diga-se, o maior do Brasil  entre os anos 60 e 90 e cenário de um genocídio que  dizimou 60 mil pessoas.  A escrita de Maura Lopes Cançado, ela própria esquizofrênica e autora de textos colossais, dos surrealistas a Artaud, Jean Cocteau, trazendo a loucura como um contradiscurso por si mesma, e, portanto, num arrazoado eclético de percepções externas e internas,  sempre território fértil.

 

Faço esse pinceladíssimo preâmbulo sobre literatura e artes e sua correlação com a loucura para observar que, em perspectiva, a minha própria literatura tem, em todos os livros que escrevi, o brilho espectral do louco a margeá-os ou mesmo enfeixá-los. Personagens como Klaus, Ludmila, João, Sr. Lohner, entre vários outros, em toda a sua louca lucidez semantizada, a aproximação entre loucura e literatura comparecem nas minhas linhas por variadas espessura e curvatura, sem, contudo, glamurizá-la, nem fetichizá-la. São percursos, narrativas a convergi-la - a loucura - literariamente na natureza da ficcionalização de uma ‘psicopatologia da vida cotidiana’ (Freud) transparecida pelos mínimos e largos gestos,  pelo oposto do que pretendem aparentar. Afinal de contas, epistemologicamente, filosoficamente, para além dos quadros nosográficos da psiquiatria, o que é loucura e o que é sanidade? 

 

Mas quero falar aqui de Jordana, personagem coadjuvante do meu segundo romance, intitulado Começa em Mar (Editora Penalux) e que recebeu Menção Honrosa do Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura 2016, a ser lançado em julho próximo.

 Uma obra que, do ponto de vista estético, situa-se entre o surrealismo e o expressionismo, segundo o professor de Literaturas de Língua Portuguesa da Universidade Estadual do Goiás, Alexandre Bonafim, que escreveu o posfácio do livro. Sobre o enredo, posso dizer que há mar e alguém que se fez nas suas promessas de caminho. Existem outras mulheres e seus percursos de amores mal apanhados, filhos que não vêm, a tormenta em inferno azul sem céu, sonhos de brasis: espanhas e portugais ideais. Um se desdobra em lobo, alguém purga duzentos anos, outra vira peixe, um pai diminui, a mãe se desfaz em brisa. Quando é mesmo que se passa a inexistir? A vida a marulhar e desandar em ondas, às vezes melancólica, um fado, noutras, escandalosa, atabaques. É uma história de insulares, suas incompletudes em roçar sensual de asas ou som metálico de ferrolhos. Revolteia. Termina em mar.

 

A louca Jordana, pretexto do tema em questão é uma mulher cuja trajetória traz uma desconectividade a devastar a regularidade do significante, uma estratégia ficcional para baralhar os sentidos, ela então se transmudando em peixe, uma metáfora da loucura análoga à da ‘Nau dos Loucos’, de Sebastian Brandt; entregue à água ‘de mil braços, ao mar de mil caminhos, a grande incerteza exterior a tudo’. Parafraseando Foucault (sempre ele), em sua definição da obra de Brandt, ‘a loucura leva-o (sujeito) a distanciar-se dos outros e ligar-se às incertezas do mundo e viver numa encruzilhada, que não o permite decidir, algo o condiciona a uma estrada com inúmeras saídas, é um prisioneiro de sua própria situação. Mesmo que a água o afaste da sua obscuridade, deixando-o puro, ao mesmo tempo afasta-o do mundo social’.

Essa definição caberia exatamente na minha louca Jordana. Mas é a loucura periférica, sorrateiramente irradiada sob os disfarces de ‘bem’ e normalidade que alinhava as águas desse mar ficcional.

 

Leia um trecho que compõe a contracapa de ‘Começa em Mar’ e que ilustra a disrrupção, em solilóquio, da personagem Jordana:

“Os pensamentos zanzavam velozes e lhe batiam na testa sem escoamento, monturo; o pão já sai, sai. Sou o peixe que vem de salvar esse mar de Róvia, não morrerá, Róvia, a maior do universo, incandescente. E o Agenor tem que surrar. No que rebenta, o Agenor surra. Bocas, as bocas desse mundo vão todas se espalhar por aí em flor. Que ninguém nos ouça, Deus já foi embora. Deus foi embora. Fez as coisas incompletas para nelas continuarmos pelas metades e eu salvo esse mundo, salvo-o de Deus. Só eu para isto. Os meus pensamentos vão e vêm na colisão assim, são faíscas, mas campeie aí, alguma coisa fica. Peixe. Falta-me água na cabeça. Vou morrer, sei que vou, todo mundo, um dia, não é justo morrer, não é justo nascer. Eu não nasci, disseram que sim, mas as pessoas mentem demais. Às vezes me dá uns calores por baixo, de sapecar o couro. Eu gosto e não. Preciso de água. Que criaturas feias e luminosas habitavam os precipícios oceânicos? Que sereias estariam ali no entorno da ilha prometida ao fim? Tanta coisa a preparar naquele hotel, a liga da tapioca, fininha, passada na peneira, o ‘apistrudi’, aquela fineza de maçãs cortadas em fatias transparentes, sovar o pão, bater um bolo alto.

Tum- Tum - Tum. A batida ritmada e monótona do coração de Jordana. Ela pedia, no mais secreto, que o músculo cessasse o tremor, desacelerando, plácido, sem choques nem dores. Que a morte lhe viesse no sono. Tinha esse jeito de viver morrendo. Haveria condenação, no desfecho, sim, sabia. Talvez do outro lado, se houvesse um outro lado, nem mesmo a mãe lhe falasse, não a uma pecadora de tal envergadura.”

 

 

 

Vanessa Maranha é autora com prêmios, finalismos e participações na bagagem. Pós-graduada em Psicanálise, é psicóloga clínica e já foi jornalista. Participou de várias antologias de contos, entre elas +30 mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira (Record, 2007), organizada por Luiz Ruffato. Em 2001 foi finalista ao Prêmio Guimarães Rosa da Radio France Internationale; em 2004, venceu seleção de contos da Universidade Federal de São João Del-Rei (MG). Foi selecionada para as oficinas literárias da FLIP em 2010 (Jornalismo Literário), 2012 (Crítica Literária) e 2016 (Shakespeare; promovida pelo British Council). Em 2012 venceu o Prêmio Off Flip, no ano seguinte, o Prêmio UFES de Literatura (Universidade Federal do Espírito Santo) com o livro de contos Quando não somos mais (EDUFES, 2014) e também o Prêmio Barueri de Literatura 2013/2014 com Oitocentos e sete dias (Multifoco, 2012). Foi finalista ao Prêmio São Paulo de Literatura 2015 com o seu romance de estreia Contagem regressiva (Selo Off Flip, 2014). E,m 2016 lançou o livro de contos Pássara, pela Editora Patuá. Começa em Mar é o segundo romance da autora e recebeu Menção Honrosa do Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura 2016.

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