Hipnose e Tecnologia

May 6, 2018

Unspoil me, aplicativo de autohipnose lançado pela Samsung e HBO promete apagar memórias de séries que você tenha esquecido de modo que possa revê-las com o frescor da ‘primeira vez’

 

Num movimento de ampla e definitiva retomada, a hipnose vem ganhando cada vez maior espaço, para além de sua espetacularização, no campo das terapias e do bem-estar humano como recurso importante no tratamento de sofrimentos de ordem física e/ou psíquica.

 

A reboque disso, na ideia do quão poderosa pode ser a mente humana, indústrias de tecnologia e de entretenimento, respectivamente Samsung e a HBO  anunciaram em janeiro o lançamento do aplicativo Unspoil me que promete apagar as lembranças de uma determinada série, filme, programa ou vídeo da mente do usuário, para que ele possa revê-la como se pela primeira vez. Para alcançar tal objetivo, esse aplicativo utiliza o recurso de uma sessão de 23 minutos de autohipnose.        

A página foi desenvolvida sob a supervisão dos hipnólogos suecos Ulf Sandström e Fredrik Praesto e pode ser acessada neste link aqui http://www.samsung.com/se/unspoilme/eng/#, uma sessão de autohipnose liberada em áudio digital num inglês com forte sotaque sueco, quase incompreensível.

 

“Você não vai esquecer nada que não queira”, assegura o portal, afirmando ainda que o procedimento não afetará memórias que não estejam relacionadas ao programa escolhido e fazendo ainda recomendações para que o usuário seja maior de idade (por questões legais) e tenha uma boa noite de sono após o processo, como forma de potencializar no cérebro os efeito da indução.                                         

Quase toda a mídia que veiculou a notícia imediatamente associou - com certa perplexidade e sensacionalismo, diga-se - a iniciativa à ideia de que um Black Mirror (série da Netflix sobre um futuro próximo e sombrio, em que a tecnologia controla as relações e os  afetos humanos) estaria já em curso.

Tal divulgação, tem vários aspectos.

 

Para a Samsung e HBO, grande sacada de marketing, a realmente despertar atenção, dado o fascínio do público sobre o tema hipnose, envolto por certa aura de mistério, exatamente pelo desconhecimento de sua especificidade e, muitas vezes compreendido pelo senso comum e reforçado pela hipnose performática, de palco, na ideia de que hipnose seria uma forma de ‘controle’ sobre o outro. Assim, subliminarmente, essas grandes corporações implantam no público a sugestão de que são tão poderosas, que podem, inclusive, trabalhar com a memória de seus clientes. Repito, como marketing corporativo, genial.                                                                              

 

Para a hipnose, como campo de estudo e atuação, há o ganho de ser divulgada, discutida, de despertar curiosidade (sobretudo fantasias) e de mostrar as suas potencialidades e evocar um maior interesse de aproximação científica sobre o tema, mas faltou elucidar melhor a concepção de que hipnose não é controle do outro sobre alguém. Que o sujeito só entra em transe hipnótico se desejar fazê-lo e, portanto, não será controlado nem manipulado por quem quer que seja; o sujeito em hipnose participa ativamente de todo o processo.                                                                          

 

O aplicativo entrega o que promete?

 

Sim. A hipnose é um método poderoso e eficiente que propicia acesso e ativação ou desativação de memórias por meio de sugestões diretas ou indiretas. Na hipnose, é verdadeira a máxima de que “ver é acreditar”.                             

 

Em transe hipnótico, de fato, é possível bloquear ou acessar memórias e até mesmo reeducar ou reprogramar determinados padrões, e aqui vai um adendo: em termos mnemônicos, não importando se as memórias sejam verdadeiras ou falsas, para o inconsciente, dentro do modelo da mente proposto por Gerald Kein, uma programação ‘aprendida’ é sempre verdadeira. Portanto, não interessa ao hipnólogo se o que está sendo narrado de fato aconteceu ou não, mas os efeitos daquilo sobre o sujeito. Na medida em que provoca efeitos ou sintomas, tais memórias e os padrões que elas desenvolveram são ‘interpretados’ pelo sujeito como reais e acionam mecanismos de funcionamento nem sempre exatamente funcionais.

 

Reprogramação de padrões

 

A mente, em seu princípio de biofeedback e economia de energia, é poderosa e seletiva o suficiente para se sugestionar a esquecer aquilo que não lhe interessa. Exemplo disso é a amnésia dissociativa (por acontecimentos traumáticos) e os recalques (formulação da Psicanálise). Eventos dolorosos e traumáticos são “esquecidos” por uma questão de economia psíquica e para dar lugar a experiências prazerosas que não solicitem dispêndio de energia. A mente funciona no sentido do princípio do prazer, ela cria padrões e funciona se repetindo nesses mesmos padrões, como numa espécie, grosso modo, de lei do menor esforço.                                                                    

 

Em hipnose é possível manejar esse mecanismo e, portanto, aquele que quiser esquecer ou reviver determinados fatos de sua vida, poderá fazê-lo, sim, nesse estado, sem efeitos colaterais. Hipermnésia e amnésia parcial são plenamente possíveis e induzíveis em estado hipnótico. Eventualmente, inclusive, aparecem como efeitos secundários da intervenção hipnótica. 

 

O que nos trará o futuro?

 

Assim, num entrelace entre ciência e tecnologia, podemos vislumbrar, num futuro próximo, aplicações focais e de efeito no campo da S

 

aúde como ferramentas muito interessantes para os vastos recursos que comprovamos possuir a mente humana, por meio da hipnose.                                                  

Da mesma forma que foi criado esse aplicativo para fomentar a venda de televisores QLED e séries a partir de uma, digamos, ‘recriação de público consumidor’ é possível imaginar aplicativos de aplicação médica, como por exemplo para  estimulação rápida e a indução a estados hipnóticos com metas bastantes específicas e cada vez mais facilitadoras aos cliente, como na hipnose para autoscopia (visualização dos órgãos internos) com fins terapêuticos como analgesia, anestesia e até mesmo cura, técnica amplamente estudada a partir de testagem randomizada, validada e aceita pela psiquiatria e pela hipniatria em suas aplicações clínicas.

 

Aplicativos ou dispositivos de aproveitamento focal, com a utilização de holografia e realidade virtual podem ser um sonho não muito distante como ferramentas auxiliares e confirmativas na hipnose para a abordagem clínica e também para autohipnose. Lembrando, contudo, que todo esse aparato tecnológico possível não substituirá o rapport, o contato humano, o respeito, a gentileza, o acolhimento, a motivação que são elementos essenciais em qualquer abordagem relacionada à saúde do sujeito, uma vez que é a religação do humano à sua própria natureza no princípio de autocura a partir do desdobramento dos nossos vastos recursos mentais a grande especificidade da hipnose, enquanto terapia de efeito.                                                                                               

 

 

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